A polidez é a origem das virtudes; a fidelidade, seu princípio; a prudência, sua
condição. Será ela mesma uma virtude? A tradição responde que sim, e é o que
cumpre explicar em primeiro lugar.
A prudência é uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média.
É a mais esquecida, talvez. Para os modernos pertence menos à moral do que à
psicologia, menos ao dever do que ao cálculo. Kant já não via nela uma virtude: é
apenas amor a si esclarecido ou hábil, explicava, não condenável, decerto, mas
sem valor moral e sem outras prescrições que não sejam hipotéticas. É prudente
cuidar da saúde, mas quem veria nisso um mérito? A prudência é vantajosa
demais para ser moral; o dever, absoluto demais para ser prudente. No entanto,
não é seguro que Kant seja aqui o mais moderno, nem o mais justo. Porque ele
concluía que a veracidade é um dever absoluto, em todas as circunstâncias
(inclusive – é o exemplo que dava – quando assassinos perguntam a você se seu
amigo, que eles perseguem, está refugiado em sua casa) e quaisquer que sejam
suas conseqüências: é melhor faltar com a prudência do que faltar com seu dever,
nem que seja para salvar um inocente ou a si mesmo! É o que não podemos mais
aceitar, parece-me, por não acreditarmos muito nesse absoluto para sacrificar a
ele nossa vida, nossos amigos ou nossos semelhantes. Essa ética da convicção,
como dirá Max Weber, até nos apavoraria: o que vale o caráter absoluto dos
princípios, se é em detrimento da simples humanidade, do bom senso, da doçura,
da compaixão? Aprendemos a desconfiar também da moral, tanto mais quanto
ela se crê mais absoluta. À ética da convicção, preferiremos o que Max Weber
chama de ética da responsabilidade, a qual, sem renunciar aos princípios (como
poderia?) também se preocupa com as conseqüências previsíveis da ação. Uma
boa intenção pode levar a catástrofes, e a pureza dos móbeis, ainda que
confirmada, nunca bastou para impedir o pior; portanto seria condenável
contentar-se com ela. A ética da responsabilidade quer que respondamos não
apenas por nossas intenções ou nossos princípios, mas também pelas
conseqüências de nossos atos, tanto quanto possamos prevê-las. É uma ética da
prudência, e a única ética válida. Melhor é mentir à Gestapo do que lhe entregar
um judeu ou um resistente. Em nome de quê? Em nome da prudência, que é a
André Comte-Sponville
– 26 –
justa determinação (para o homem, pelo homem) desse melhor. É a moral
aplicada, e o que seria uma moral que não se aplicasse? As outras virtudes, sem a
prudência, não poderiam mais que revestir o Inferno com suas boas intenções.
Mas eu estava falando dos antigos. É que a palavra prudência é demasiado
carregada de história para não estar sujeita a equívocos; e, de resto, ela quase
desapareceu do vocabulário moral contemporâneo. O que não significa que não
precisemos mais da coisa.
Examinemos com maior cuidado o problema. Sabemos que os latinos traduziram
por prudentia a phronésis dos gregos e, especialmente, de Aristóteles ou dos
estóicos. De que se trata? De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo
fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a
prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom
ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas
em determinada situação) e agir em conseqüência, como convier. É o que
poderíamos chamar de bom senso, mas que estaria a serviço de uma boa
vontade. Ou de inteligência, mas que seria virtuosa. É nisso que a prudência
condiciona todas as outras virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve
fazer, nem como chegar ao fim (o bem) que ela visa. Santo Tomás bem mostrou
que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a
temperança, a coragem e a justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer,
nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem
saber como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer de sua
coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais
que habilidade. A prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe a
serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios. Mas é
isso que a torna insubstituível: nenhuma ação, nenhuma virtude – em todo caso,
nenhuma virtude em ato – poderia prescindir dela. A prudência não reina (mais
vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um reino sem
governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para ser
pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa ação. A
prudência decide e a coragem provê.
condição. Será ela mesma uma virtude? A tradição responde que sim, e é o que
cumpre explicar em primeiro lugar.
A prudência é uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média.
É a mais esquecida, talvez. Para os modernos pertence menos à moral do que à
psicologia, menos ao dever do que ao cálculo. Kant já não via nela uma virtude: é
apenas amor a si esclarecido ou hábil, explicava, não condenável, decerto, mas
sem valor moral e sem outras prescrições que não sejam hipotéticas. É prudente
cuidar da saúde, mas quem veria nisso um mérito? A prudência é vantajosa
demais para ser moral; o dever, absoluto demais para ser prudente. No entanto,
não é seguro que Kant seja aqui o mais moderno, nem o mais justo. Porque ele
concluía que a veracidade é um dever absoluto, em todas as circunstâncias
(inclusive – é o exemplo que dava – quando assassinos perguntam a você se seu
amigo, que eles perseguem, está refugiado em sua casa) e quaisquer que sejam
suas conseqüências: é melhor faltar com a prudência do que faltar com seu dever,
nem que seja para salvar um inocente ou a si mesmo! É o que não podemos mais
aceitar, parece-me, por não acreditarmos muito nesse absoluto para sacrificar a
ele nossa vida, nossos amigos ou nossos semelhantes. Essa ética da convicção,
como dirá Max Weber, até nos apavoraria: o que vale o caráter absoluto dos
princípios, se é em detrimento da simples humanidade, do bom senso, da doçura,
da compaixão? Aprendemos a desconfiar também da moral, tanto mais quanto
ela se crê mais absoluta. À ética da convicção, preferiremos o que Max Weber
chama de ética da responsabilidade, a qual, sem renunciar aos princípios (como
poderia?) também se preocupa com as conseqüências previsíveis da ação. Uma
boa intenção pode levar a catástrofes, e a pureza dos móbeis, ainda que
confirmada, nunca bastou para impedir o pior; portanto seria condenável
contentar-se com ela. A ética da responsabilidade quer que respondamos não
apenas por nossas intenções ou nossos princípios, mas também pelas
conseqüências de nossos atos, tanto quanto possamos prevê-las. É uma ética da
prudência, e a única ética válida. Melhor é mentir à Gestapo do que lhe entregar
um judeu ou um resistente. Em nome de quê? Em nome da prudência, que é a
André Comte-Sponville
– 26 –
justa determinação (para o homem, pelo homem) desse melhor. É a moral
aplicada, e o que seria uma moral que não se aplicasse? As outras virtudes, sem a
prudência, não poderiam mais que revestir o Inferno com suas boas intenções.
Mas eu estava falando dos antigos. É que a palavra prudência é demasiado
carregada de história para não estar sujeita a equívocos; e, de resto, ela quase
desapareceu do vocabulário moral contemporâneo. O que não significa que não
precisemos mais da coisa.
Examinemos com maior cuidado o problema. Sabemos que os latinos traduziram
por prudentia a phronésis dos gregos e, especialmente, de Aristóteles ou dos
estóicos. De que se trata? De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo
fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a
prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom
ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas
em determinada situação) e agir em conseqüência, como convier. É o que
poderíamos chamar de bom senso, mas que estaria a serviço de uma boa
vontade. Ou de inteligência, mas que seria virtuosa. É nisso que a prudência
condiciona todas as outras virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve
fazer, nem como chegar ao fim (o bem) que ela visa. Santo Tomás bem mostrou
que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a
temperança, a coragem e a justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer,
nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem
saber como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer de sua
coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais
que habilidade. A prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe a
serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios. Mas é
isso que a torna insubstituível: nenhuma ação, nenhuma virtude – em todo caso,
nenhuma virtude em ato – poderia prescindir dela. A prudência não reina (mais
vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um reino sem
governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para ser
pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa ação. A
prudência decide e a coragem provê.
Texto extraído do livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes de André Comte Sponville.
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